quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Estatizar as calçadas

Estatização das calçadas
Caminhar é um grande remédio para muitas doenças. Qualquer cardiologista pergunta, antes de tudo, se praticamos exercícios ou, ao contrário, enquadramo-nos no padrão “sedentário”. Não caminhar é uma forma de aumentar a cintura e o colesterol.
A expectativa de vida do brasileiro está crescendo rapidamente. Chegando a sete décadas, o cidadão vivente nesta terra tropical sente restrições e facilidades se tiver vivido intensamente ou com alguma prudência.
O idoso adquire fragilidades em conseqüência da perda de agilidade, capacidade sensorial, motora etc. As dificuldades vão da necessidade de lugares para suas necessidades fisiológicas, inexistentes em nossas ruas e avenidas, até a segurança do piso e a convivência com motoristas nem sempre civilizados em suas máquinas metálicas.
Caminhamos levando crianças para suas escolas, indo ao trabalho, talvez procurando um lugar para sentar, existir nas cidades. Caminhamos?
A invenção dos “shoppings centers” mudou a lógica dos nossos planejadores urbanos. Parece que agora a prioridade é a fluidez do trânsito motorizado entre um shopping e outro, da fábrica para a casa, do bar para o parque, da casa para a igreja...
As cidades se transformaram em arquipélagos onde, para ir de uma ilha a outra, ou embarcamos em algo movido a combustíveis, pesando e poluindo sobre ruas asfaltadas (irradiadoras de calor) e mantidas com todo carinho pelos prefeitos, ou arriscamo-nos a caminhar sobre circuitos que são autênticos campos minados, cheios de armadilhas, atravessando pistas, sendo alvo de bandidos armados de revólveres ou dentro de veículos assassinos.
Quem mandou ser pobre, idoso ou maluco?
Por algum artifício legal as calçadas são, exceto algumas de interesse midiático ou super estratégico, de responsabilidade do proprietário do imóvel confrontante. Esse cidadão deve cuidar para que o espaço do andarilho urbano seja adequado às suas necessidades. Será?
Não existem duas pessoas iguais, imaginem a diferença de visão de centenas de milhares de proprietários de imóveis diante da responsabilidade de fazer e cuidar das suas calçadas. O resultado desse equívoco é a descontinuidade, a má qualidade, o perigo de andar pelas calçadas (quando existem).
Aos poucos ganhamos mais e mais leis; dentro desse universo normativo perigoso que se abate sobre o povo, temos coisas boas, como, por exemplo, a definição de direitos e deveres dos proprietários de imóveis, pedestres, motoristas, empresários etc.
Naturalmente, envelhecendo, a população torna-se dependente de cuidados que nos tempos de nossos avós não eram tão importantes na maioria absoluta das cidades em qualquer lugar do mundo. Lembrando como vivíamos há seis décadas passadas em Blumenau não podemos esquecer os conselhos para não pisar em urina de cavalo, atenção para não levar coice, nada de pescar nos rios sem cuidados especiais (por exemplo, as cobras, bichinhos tinhosos), ao jogar bola na rua quando o Ford de Bigode ou algum carro mais moderno aparecesse deixá-lo passar, cuidado para não quebrar vidraças dos vizinhos, se subir em alguma goiabeira (nada melhor do que goiaba assim) não vá cair e por aí afora.
O mundo mudou muito, agora somos gente aprisionada entre cercas eletrificadas durante a noite para não sermos assaltados, vemos na televisão que o mundo vai acabar mergulhado em água quente e ao sairmos de casa devemos tomar cuidados especiais, se formos a pé, para não sermos agredidos, atropelados, não cairmos em buracos, não tropeçarmos em pedras e raízes, não escorregarmos em pedrinhas que saudosistas dizem lembrar os tempos da titia...
Precisamos corrigir, atualizar as cidades, curá-las dos males de uma modernidade mal feita.
Obviamente construir sistemas e equipamentos sofisticados dá voto, é bonito. E as calçadas não poderiam ser enquadradas em projetos políticos, midiáticos?
A transferência da responsabilidade de projetar, fazer e manter calçadas para as prefeituras seria a viabilização de grandes projetos em condições de se financiarem via BNDES com fundos específicos. Nossas prefeituras poderiam acionar as concessionárias de serviços públicos para a formação de parcerias e assim refazer a parafernália que se instalou sob e sobre nossas calçadas. O trabalho excitaria grandes empreiteiras, teria a simpatia dos banqueiros e haveria como submetê-lo com esperança de cumprimento às normas e regras de acessibilidade e mobilidade federais, estaduais e municipais. Em menos de dois anos estaríamos viabilizando uma revolução urbanística. Criaríamos centenas de milhares de postos de trabalho, a maioria absoluta para profissionais de nível médio, pedreiros, eletricistas, calceteiros, encanadores etc.
Sob comando único teríamos quem responsabilizar pelo sucesso ou insucesso de decisões gerenciais.
Concluindo, o que estamos esperando?
Vamos abraçar com vigor a bandeira, “estatização já das calçadas brasileiras”.

Cascaes
17.12.2009

Um comentário:

Ghidini disse...

Estimado Cascaes,

Nossa luta nesse sentido é sem duvida uma bandeira pelos direitos universais.

As cidades se converteram como voce bem disse em "ilhas temporais" os shoppings estao vencendo as ruas e sugiro a leitura deste artigo em meu blog:

http://ghidinienespanha.blogspot.com/2009/10/el-valor-del-shopping.html