terça-feira, 13 de abril de 2010

Minha rua, minha cidade e as bicicletas

Nasci em Blumenau, 8 de outubro de 1944. Ano de guerra, cresci lutando.

Blumenau era uma pequena cidade, daquelas eras em que algum carro motorizado de tempos em tempos passava em frente de nossa casa, bem no centro, ao lado do Hotel Durma Bem, perto do Colégio da Sagrada Família.

Dos carros tínhamos o cheiro de óleo queimado de uma grande oficina, da qual víamos uma parede imensa e um muro mais adiante, que minha mãe compensava com um belo canteiro, quase sem flores, pois não pegava Sol.

A rua em frente à nossa casa (na época Rua 4 de Fevereiro) só ganhou asfalto em 1950; afinal o prefeito queria festejar o centenário da cidade mostrando-a moderna.

Minha primeira bicicleta, um triciclo, ganhei muito antes. Pernas tortas, algum médico, o Dr. Câmara, talvez, disse para meus pais que a bicicleta ajudaria a corrigir o arco que levava entre os pés e a barriga. E as bicicletas vieram, inclusive um carrinho de lata, a pedais, que eu usava orgulhoso enquanto emprestava meu primeiro triciclo para minha irmã, mais nova do que eu.

Bom mesmo era andar, sair de casa para fazer tobogã num barranco de cepilho de uma marcenaria perto de casa, ir pescar no ribeirão Garcia (piaba, cará, cascudo etc.), andar pelo mato nas épocas das amoras, carambolas e pitangas e explorar os muitos morros que cercam Blumenau. Terrenos baldios ou mal protegidos e quintais vizinhos garantiam as goiabas, as laranjas, os pêssegos e figos. Em tempo, o Ribeirão Garcia era a fonte dos meus peixinhos, que colocava em aquários improvisados... Em casa éramos visitados pelos sabiás, canários da terra, azulões, coleirinhas, tico ticos, saíras... e os pardais. O desafio de nós dois, eu e minha irmã Sônia Maria, era espantar os caçadores.

A cidade quase não tinha carros, era movida a bicicletas, que maravilha para as crianças!

Assim ia e vinha da escola (às vezes batendo queixo, outras vezes chegando molhado pelas chuvas) com a minha Erlan, freio no pedal e pneus que raramente furavam. Tinha para lamas, farolete, sinetinha e bagageiro, realmente eficazes. Agüentava qualquer parada e assim pude exercitar desafios como subir e descer de bicicleta (sem marchas) o morro do Colégio D. Pedro II, o morro da Maternidade, todos os dois com excelentes pistas para descer com o máximo de velocidade, arriscando algumas proezas e sofrendo alguns tombos, dos quais, o pior, foi no tempo em que usava um triciclo reforçado. Não conseguindo fazer a curva ao final da descida, bati no meio fio dando uma pirueta antes de cair no chão. A bicicleta não entortou, maravilhas daquela época.

Chato eram as denúncias de amigas, que contavam para a mãe o que fazíamos.

E conhecer Blumenau era uma festa para a visão e todos os outros sentidos. Casas com jardins impecáveis, cheias de cortinas e cheiro de chucrute eram normais na Velha enquanto no Bom Retiro os castelos impressionavam, talvez tanto quanto a fábrica da Hering. E lá, no clube de tiro, íamos catar cartuchos sem saber exatamente para quê. Dois caminhos levavam ao Bom Retiro, um pelo Morro do Hospital Santa Isabel, o outro passando perto do Colégio D. Pedro II. O legal, ao caminhar pelo morro, era ver o Ribeirão e as flores silvestres. Perigo mesmo quando, e isso aconteceu dando um tremendo susto em nossa mãe Chiquinha, de noite ela pisou numa cobra. Iluminação pública era coisa das ruas melhores.

Andávamos muito, para qualquer visita a família inteira saía andando pela rua mesmo, quando faltava calçada, afinal medo do quê? Longas caminhadas para que meus pais travassem um papo amigo e nós, sob severo controle, não aprontássemos nada.

Meus pais não usavam bicicletas, o negócio do meu pai era andar mesmo. Para ele comprar um carro, um fusca lá pelos anos sessenta, foi preciso minha mãe colocá-lo contra a parede, negando-se a assinar um documento de compra e venda de um imóvel. Talvez a causa real tenha sido o roubo de um canário, que ele gostava demais, e não descansou enquanto não o descobriu num beco de algum bairro.

E minha bicicleta de duas rodas, quando a ganhei num Natal, a primeira, fiquei olhando para o céu esperando ver o Papai Noel...

Os tempos passaram. Agora as cidades estão asfaltadas e usar bicicletas é uma aventura. Caminhar é perigoso, pode-se ser assaltado, atropelado, escorregar em calçadas mal feitas ou até cair em buracos inesperados, apesar do “progresso”.

Morando em Curitiba depois de velho vejo as manchetes e deploro o desvirtuamento das cidades, que deixaram de ser lugares de crianças e homens para pertencerem a motoristas, nem sempre atentos àqueles que caminham ou usam bicicletas.

Os índices de acidentes, assaltos, assassinatos atropelamentos etc. mostram que o mundo mudou muito.

Não estamos em guerra declarada, mas numa luta fratricida, inconsciente e tremendamente perigosa, que se não mata aleija, educa mal, constrói cidadãos motorizados, egoístas, alheios à Natureza e a eles próprios.



Cascaes

12.4.2010

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