segunda-feira, 5 de abril de 2010

O "petit pavé", tão execrado por nós devido a sua má execução

Meu amigo Cascaes e demais


companheiros do FOMUS e do ainda seremos,


Tenho me mantido ausente de toda esta importante discussão e luta de todos quanto ao impedimento da convalidação de um modelo econômico penalizante à cidade de Curitiba, traduzido nesta concorrência desastrada do transporte coletivo.

Infelizmente muitos projetos fora da cidade têm me mantido distante. As ciclovias, ciclofaixas e a mobilidade por bicicleta em algumas cidades do País têm me mantido afastado de Curitiba, mas não dos amigos e da luta travada.

No entanto, neste momento queria comentar sobre calçadas e passeios de pedestres. Um primeiro ponto, insisto, refere-se a definição de calçada e de passeio de pedestres. Isto para que possamos unificar linguagens. No meio acadêmico existe a definição de que calçada é o espaço entre o limite das propriedades e o meio-fio da caixa da via. Passeio é o espaço exclusivo à circulação dos pedestres.

Deve ser entendido que na maioria das cidades brasileiras, de colonização lusitana, a calçada é o passeio e nada mais é possível acontecer neste espaço. Entretanto, em muitas cidades de colonização espanhola e largamente nas grandes cidades européias a calçada é muito mais. Nela existe o espaço para equipamentos públicos; espaço para o passeio de pedestres; espaço para a arborização; espaço até para a ciclofaixa na calçada, em área apartada do passeio, mas no mesmo nível deste.

Infelizmente, repito, aqui a calçada, por sua reduzida largura, é o próprio passeio. Nada mais é possível colocar sobre ela. Aqui os espaços não têm hierarquia. Sobre as calçadas tudo se mistura: postes; pessoas; orelhões; árvores, arbustos, gramíneas; pessoas; cachorros; placas de sinalização veicular; colunas de letreiros; pessoas etc. Uma verdadeira Babel de pessoas, objetos e uso. E o pior, em cima de um pavimento mal cuidado, de baixa qualidade executiva e com material duvidoso.

Uma observação importante. O "petit pavé", tão execrado por nós devido a sua má execução, não pode ser considerado atraso nos pavimentos voltados à circulação dos pedestres. Estás louco, meu amigo! - diriam os não meus conhecidos. Não, - diria eu para todos - não ensandeci. Três anos atrás tive a oportunidade de ir a Portugal antes de ir a Holanda. Na terra mãe fui a um Congresso em Braga, onde apresentei algumas pequenas e pífias conquistas em termos de projetos cicloviários. Fui até lá mostrar algo e saí com uma aula de pavimento para pedestre. É mesmo? - diriam os mais céticos.

Sim, é verdade. Em Braga, no norte de Portugal tive a oportunidade de circular em calçadões que se estendem por mais de 4 km da cidade. Isto representa mais área de calçamento do que toda a cidade de São Paulo. E olha que Baga tem cerca de 180 mil habitantes e constitui o centro de uma região com cerca de 1 milhão de habitantes. Mas São Paulo quantos habitantes têm? 12 milhões? 13 milhões? E a RMSP? 19? 20? 21 milhões de habitantes? Pois bem, lá eles tratam bem os pedestres. A automovelcracia não domina tudo, mas sim os pedestres. E não quer dizer que não exista automóveis e vias para ele. No centro da cidade há uma via com um túnel bifurcado, ao estilo do Ayrton Senna em São Paulo, sob o Parque Ibirapuera, para quê? Para garantir a integridade do espaço dos pedestres sob grande calçadão. Um anel viário com duas pistas com três faixas de tráfego em cada sentido circunda todo o centro expandido. Dentro dele as velocidades são acalmadas e, como já disse, podemos encontrar quase 4 km de calçadas livres de automóveis, onde existem passeios, árvores, mobiliário urbano como bancos e postes de iluminação, estátuas, chafarizes e pequenas e belas fontes de água e luz. Ou seja, um banho de civilidade para nossos olhos.

Mas o melhor é que o piso reveza o grês com o petit pavé (ou pedra portuguesa). E o mais fantástico ainda, uma mulher pode andar com toda a elegância sobre seus saltos altos que não cairá de forma alguma. E sabem por que? Porque o piso foi assentado por calceteiros de boa formação, num trabalho de qualidade invejável tanto no arranjo das pedras, como no acabamento, e muito mais no encaixe das mesmas. Andamos sobre o piso de pedra portuguesa como se estivéssemos em um piso de superfície contínua. Isto mudou em definitvo o conceito que tinha sobre o "petit pavé" ou, como queiram, a "pedra portuguesa". Para provar o que digo enviarei três fotos tiradas num dos calçadões construídos com piso desta natureza.


Enquanto isto, nós aqui, em Curitiba, vivemos com o pior das estruturas construídas em "petit pavé". O problema então é do piso? Dos governantes que não sabem administrar e coordenar ações? Da nossa formação cultural? Ou de todas estas deficiências juntas? Acho que estamos mais enquadrados nesta última.



Grande Abraço a todos.

Saudações @bicis.com

Miranda



-----mmm-----



Em 4 de abril de 2010 00:13, JCCascaes escreveu:

http://cidadedopedestre.blogspot.com/
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Um comentário:

João Carlos Cascaes disse...

Prezado amigo Miranda (urbanista e arquiteto que respeito muitíssimo)

Realmente temos tecnologias e histórias para esplicar e até justificar o que existe.
Acontece que o perfil da população muda acelradamente em Curitiba, cidade lamentavelmente destinada a ser uma imensa metrópole. Nessas ciscunstâncias devemos planejar e fazer projetos para talvez milhões de pessoas idosas, PcDs, etc., sempre lembrando que a cidade é ambiente de convergência da População da RMC que vem para ir ao HC, por exemplo, onde as calçadas são autênticos tobogãs em dia de chuva.
Isso e mais comentários, forografias, filmes, palestras sobre acessibilidade e inclusão me convenceram da importância de um bom plano de reforma das calçadas, passeios etc. de Curitiba e RMC enquanto temos tempo.
Um grande abraço e grato pela contribuição.