quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Crianças, ruas e radares e autonomia

Em Curitiba, com a polêmica criada em torno da instalação de radares, chegamos a uma situação que pode agradar gente irresponsável ou incauta, mas que talvez tenha resultado numa solução no mínimo estranha.

Por exemplo, a velocidade máxima na cidade, em trechos onde isso for possível e explicitamente permitido, é de 60 km/hora, ou seja, em qualquer rua ou avenida que o cidadão trafegasse dirigindo algum veículo acima desse limite deveria ser punido. Aqui, implicitamente diz-se o contrário, ou seja, em muitos lugares da cidade o radar avisa que naquele trecho, devidamente marcado na pista por pequenas lombadas amarelas e placas com destaque (e caras), os carros serão multados se ultrapassarem o limite de 60 km/h. Qual é a mensagem implícita? De que fora daqueles lugares pode-se andar em velocidades maiores...

Por aqui a lombada eletrônica, assim era conhecida a princípio, servia para determinar velocidades menores de modo a permitir ao pedestre poder atravessar a rua. E agora, serve para quê?

Felizmente aos poucos a PMC vai ampliando a vigilância com radares, a única realmente eficaz, pois está lá sempre, mas o dano causado pelo equívoco possível com a sinalização é quase irreversível.

Pior que a falsa liberação de velocidade é a má qualidade das calçadas e o desprezo pela vida dos transeuntes. Vale a pena tratar da situação das crianças a partir de alguns exemplos de países mais desenvolvidos culturalmente.

Em qualquer lugar que possa ter crianças, idosos e pessoas com deficiência(s) deve-se ter cuidados maiores ao dirigir. Vamos a um exemplo extraído de http://www.priorite-vos-enfants.fr/  de estudos sobre o comportamento e risco das crianças:

Para as crianças de 6 a 9 anos, o risco “passageiro de carro” ainda é importante (perto de 40% das vítimas da circulação viária), mas é o risco “pedestre” que se torna predominante com 47% das vítimas da circulação viária nessa faixa de idade (na França). E, contrariamente ao que se poderia crer, os acidentes são freqüentes em presença de uma adulto (mais de um caso em cada quatro)! Números que fazem pensar. Por quê sua criança é vulnerável? Em que idade pode-se deixar ir sozinha à escola? Entre 6 a 9 anos as portas da autonomia se encontram. 4210 crianças de menos de 10 anos foram vítimas (França) de um acidente de rua ao longo do ano de 2005: 75 foram mortas e 4135 feridas. As crianças entre 6 e 9 anos representam quase a metade dessas vítimas (22 mortas e 2051 machucadas, das quais 735 hospitalizadas ). 44% desses acidentes tiveram lugar entre a escola e o domicílio, particularmente quando do retorno à casa após o meio dia. 29% dos acidentes aconteceram quando a criança se entregou a um lazer. 24% quando caminhava com seus pais. 35% dos acidentes aconteceram sobre uma passagem para pedestres quando a criança atravessava! Entre esses acidentes 65% se produziram na proximidade do domicílio. E 25% desses casos antes dos 8 anos, mesmo diante d domicílio! Enfim, contrariamente ao que se poderia acreditar, o acompanhamento de um adulto não é necessariamente um ganho de segurança: 27% (sempre lembrando, França) dos acidentes com crianças se produziram em presença de um adulto, onde 10% atravessando uma rua para encontrar ... outro adulto.


Por quê sua criança é vulnerável?


Até os 7 anos uma criança encontra dificuldade para avaliar as distâncias. Ela tem dificuldade de distinguir entre um carro parado e um se deslocando em baixa velocidade. Mesmo se o campo visual dela seja idêntico ao seu, ela não é capaz de perceber o que se passa nas laterais. Portanto é importante lembrar que uma criança de 6 a 9 anos não se concentra em mais do que uma coisa por vez. Sua criança tem reais dificuldades para identificar corretamente a origem dos ruídos mesmo se ela escuta tão bem quanto você. Em 40% dos casos ela se engana entre um ruído proveniente na frente ou atrás. E, em 60% dos casos, se o ruído vem do lado. Conseqüência: o olhar segue a audição de forma errada. Seu comportamento é dominado por suas emoções.


Caminhando sobre a calçada, atravessando uma rua, a criança não pensa em outra coisa que não seja em seu divertimento ou inquietude. Não percebe o carro que vê chegar. Se tiver pequeno tamanho, se perde a visão dos motoristas. É óbvio para todos nós. Mas para a criança é uma noção muito difícil de ser entendida. Em que idade se pode deixá-la ir sozinha e a pé para a escola? Não antes dos 7-8 anos sob certas condições: as crianças mais novas não dispõem ainda de capacidades suficientes para garantir sozinhas a sua segurança.



Diz meu amigo e CL PDG Tosihiro Ida:

No Brasil são vitimadas anualmente cerca de 150.000 pessoas, entre feridos e mortos em acidentes de trânsito. Lá no Japão os alunos do primeiro grau caminham em grupo sob a liderança de uma das mães que se revezam diariamente.


Há certas travessias de ruas onde existem depósitos de bandeirinhas amarelas em cada lado de rua. Os pedestres, principalmente as crianças, pegam essas bandeirinhas e atravessam a rua, chamando a atenção dos motoristas e após a travessia colocam na caixa de depósito. Interessante de tudo isso que as bandeirinhas não desaparecem!


Para evitar acidentes acho que vale à pena utilizar de todos os meios imagináveis, visando a salvar preciosas vidas, não somente de crianças, mas de todos os pedestres.



Ou seja, para não cansar o leitor, principalmente se tiver alguma criança que lhe preocupe, cuide, pense, proteja-as, pois além da incompetência da imensa maioria dos administradores urbanos, nós sabemos muito pouco de suas fragilidades.



Cascaes

5.8.2010

Um comentário:

Ghidini disse...

Cascaes,

Deixo uma contribuiçao, mais que um comentário.

Sao dois artigos publicados em blogs. No primeiro, em meu blog, algo extraido de um trabalho acadêmico em que a reflexao é de Choay...e no segundo, um comentário sobre o livro "La ciudad paseable" (Julio Pozueta e outros) feito pelo catedrático José Fariña.

abrazos e parabéns pelo trabalho,

rg

http://ghidinienespanha.blogspot.com/2010/08/el-nino-y-la-calle.html

http://elblogdefarina.blogspot.com/2010/02/la-ciudad-paseable.html